De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, são 168 milhões as crianças vítimas de trabalho infantil. Estima-se que 44% das vítimas tenham entre 5 e 11 anos. Futuros adultos com infâncias perdidas e almas destroçadas; 168 milhões de crianças sem direito a serem amadas.
Ideias, opiniões, gostos, prazeres, fruições, sensibilidades e rotinas serão aqui registadas.
sábado, 28 de setembro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
"Se Gostaste da Escola, Vais Adorar o Trabalho" - sátiras honestas de Irvine Welsh
Irvine Welsh assina cinco extraordinárias histórias reunidas no livro Se Gostaste da Escola, Vais Adorar o Trabalho, afirmando-se como mestre da narrativa breve e como um dos escritores mais cómicos da cena literária contemporânea.
Nesta recolha de histórias são colocadas ao leitor diversas questões de difícil, mas curiosa, resolução: Como é que três jovens americanos dão por si perdidos no deserto, dentro de uma tenda com dois mexicanos armados? Quem é o misterioso cozinheiro coreano que se muda para casa de Kendra Cross, uma socialite de Chicago? E o que é que ele tem a ver com o desaparecimento de Toto, o pequeno cão de Kendra? Como faz Mickey - o inglês dono de um bar nas Canárias - o malabarismo de manter a relação com a sua empregada, Cynthia, enquanto cuida da juvenil Persephone, uma turista grega, e dribla a sua persistente ex-mulher e uma parelha de gangsters espanhóis? Que sucessão de acontecimentos leva a que Raymon Wilson Buttler, cineasta falhado convertido em biógrafo de um lendário realizador americano, acabe como objeto de memorabilia do cinema? E porquê narrar o quotidiano de Jason, indolente habitante do Reino de Fife, na Escócia, recorrendo por inteiro ao calão local?
Nesta obra, Irvine Welsh desenha um coro de vozes rudes, cruas, discordantes, sujas, grotescas, por vezes surreais e extremamente cómicas.
domingo, 15 de setembro de 2013
Banda sonora para o verão: Lloyd Cole - "Standards"
Lloyd Cole regressa aos grandes discos com "Standards". Ao contrário do que o título poderia sugerir, o novo opus do músico nova-iorquino é constituído por onze canções originais inspiradas na renovada energia de Bob Dylan em "Tempest" (disco alvo de recensão crítica, há cerca de um ano atrás, neste blogue). Com a preciosa colaboração de Joan as Police Woman (piano metronómico), Fred Maher (bateria), Matthew Sweet (baixo), Blair Cowan (teclista dos Commotions) e do seu filho Will Cole (guitarra), o autor de "Rattlesnakes" gravou um sereno disco de rock, conseguindo momentos de elevação poética só comparáveis a Leonard Cohen, Lou Reed e, claro está, Bob Dylan. "Period Piece", "Myrtle and Rose", "No Truck" e "Kids Today" são canções da mais fina estampa a anunciar a iminência do outono.
Lloyd Cole - "Period Piece"
terça-feira, 10 de setembro de 2013
"Contos Sobrenaturais" - o prazer em ler Carlos Fuentes
Governada por uma ordem espiritual e poética que se sobrepõe à cadência cronológica, a existência humana nas terras pré-hispânicas regula-se desde há três mil anos pelo eterno presente do mito. Nos Contos Sobrenaturais do mexicano Carlos Fuentes (1928-2012), mais do que linguagem e efabulação, a morte e o mito são presenças tão reais que ganham carne e osso, transmutadas em sincretismos: dia e noite, chuva e seca, lua e sol, vida e morte.
Um destes impressionantes contos, narra a história trágica de Felipe Monteiro, historiador formado na Sorbonne, que, em resposta a um anúncio de jornal, aceita a completar as memórias inacabadas de um general falecido há sessenta anos. Para tal, Felipe viverá numa casa governada na penumbra, alimentado a rins, tomate e vinho, na companhia da velha viúva do general e da sobrinha, Aura. Louco de paixão e desejo por esta bela jovem, "fechada como um espelho", Felipe terminará como um Cristo negro, sacrificado no altar do tempo e do amor.
Datado de 1962, escrito na segunda pessoa do singular e na perpétua fusão entre os tempos presente e futuro, o conto "Aura" é por muitos considerado a mais notável criação de Fuentes e uma das mais emblemáticas da literatura latino-americana. A essência rural da alma mítica mexicana surge em Fuentes transfigurada em ambiente urbano, tão cosmopolita que se lê ao som do jazz (o conto "Pantera em Jazz") ou como novela de ficção científica ("O Robô Sacramentado"). Todos estes nove contos são da primeira fase da carreira do escritor, período marcado por narrativas breves e esteticamente delicadas. Um livro de leitura obrigatória para quem opta pela grande literatura.
domingo, 8 de setembro de 2013
No verão quente de 1963
Há 50 anos, no Lincoln Memorial, em Washington, Martin Luther King, líder do movimento de luta pelos direitos civis, proferiu o discurso que constituiu um marco histórico na luta pela igualdade racial. «I have a dream» - foi a sua célebre frase, repetida várias vezes ao longo do discurso, feito em tom profético e que marcou o movimento pela cidadania e respeito pela cultura da população negra nos Estados Unidos da América e a nível mundial. As ameaças de morte que recebia eram já nessa altura frequentes, tendo sido assassinado cinco anos depois. Convém, portanto, relembrar um discurso de paz em tempo de guerra iminente.
sábado, 24 de agosto de 2013
Banda sonora para o verão: Unitopia - "Covered Mirror Vol. 1"
Unitopia é uma banda australiana com uma carreira discreta, mas marcada por uma coerência estética impressionante. Há alguns meses editaram um disco de homenagem às bandas e aos artistas que os inspiraram na construção de álbuns concetuais próximos do neo-prog iniciado nos anos 80 por bandas como Marillion, Pendragon, It Bites e IQ. "Covered Mirror Vol. 1" (com o subtítulo "Smooth As Silk") é uma obra sublime na forma como os Unitopia transfiguram clássicos dos Yes, Genesis, Klaatu, Marillion, entre outros, e os tornam seus. Dito de outro modo: apesar da grandiosidade das canções originais, as versões do grupo australiano ganham vida própria, com pleno direito de coexistirem com as anteriores. Trata-se, portanto, de um LP obrigatório.
Unitopia - "Easter"
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Ética e Política em Democracia (4)
Em 2005, inspirados pelo caso de perenidade surreal de Alberto João Jardim, os deputados do PS e do Bloco de Esquerda aproveitaram o momento e a correlação de forças políticas para mudar a lei então vigente que assegurava a permanência ilimitada no poder de autarcas e governantes regionais. Mas, como este é um campo em que as fronteiras entre esquerda e direita são extremamente voláteis, o PSD (assombrado pelo barão intocável que comanda os destinos da Madeira) tinha como aliado o PCP (um partido que compete com o regime comunista de Cuba na frequência com que muda de líder) na defesa dos monarcas camarários. Já o CDS e os Verdes abstiveram-se, o que permitiu a passagem da lei, embora reduzida à limitação dos mandatos autárquicos e mantendo uma ambiguidade semântica que permitia interpretações dúbias: a partir dessa altura, um presidente de uma câmara municipal não poderia manter-se à frente da autarquia ao fim de três mandatos; mas isso seria impeditivo de concorrer a outra(s) câmara(s) para um mandato idêntico, repetindo-se esta condição ad aeternum?
Com a aproximação das eleições autárquicas deste ano, a necessidade de clarificar a lei colocou-se de forma premente. Todavia, a triste verdade é que ninguém ousou no Parlamento uma nova iniciativa legislativa, responsabilizando os tribunais pela decisão final. Começou então a trapalhada da judicialização da política, com tribunais a decidirem em sentido contrário a partir de um mesmo texto legal, umas vezes autorizando que autarcas prestes a esgotar a limitação de mandatos num município pudessem concorrer a uma outra câmara, outras vezes interditando tais pretensões. Mas, para complicar ainda mais a saúde e clareza da nossa democracia, a sentença decisiva ficará sempre dependente do Tribunal Constitucional.
É altura de percebermos que esta perpetuação do poder autárquico congela as perspetivas de renovação do país. No poder local, repetem-se as mesmas cenas e as mesmas personagens, sem que delas se extraia uma lógica de necessidade. Assistimos a uma sórdida pantomina de ambições políticas medíocres, onde se pula de câmara em câmara como único objetivo de vida e se fecham as portas ao rejuvenescimento das instituições, reféns da rede de clientelismos que circulam de um concelho para outro ao ritmo da construção de rotundas. Será o nosso País uma feira de velharias sem préstimo?
domingo, 18 de agosto de 2013
"Elysium" - uma distopia atabalhoada de Neill Blomkamp
Acaba de estrear "Elysium", o novo filme de Neill Blomkamp, cineasta que há quatro anos surpreendeu o mundo com o muito interessante "Distrito 9". Todavia, a película assinada em 2013 é uma deceção a todos os níveis.
"Elysium" tem uma premissa promissora: em 2159, milionários e políticos influentes vivem numa estação espacial - o Elysium que dá nome ao filme -, enquanto os pobres permanecem na Terra - planeta devastado pela sobrepopulação, dominado por favelas e com uma atmosfera quase irrespirável. Muitos sonham com a possibilidade de chegar àquele paraíso acima da miséria que se vive no planeta azul; alguns tentam lá entrar clandestinamente; mas Elysium é vigiado com mão de ferro pela déspota secretária de Estado Delacourt (Jodie Foster num dos muitos personagens caricaturais da fita), que tenta por todos os meios preservar a vida luxuosa dos privilegiados habitantes da estação orbital. Contudo, um operário (Matt Damon num esforço constante em dar espessura dramática ao seu personagem), vítima de exposição a radiações excessivas na fábrica onde trabalha, vai embarcar numa demanda em direção a Elysium na expectativa de encontrar uma cura para a sua doença. Pelo caminho, a empresa deste herói deixa de ser individual para defender uma causa maior: permitir o acesso do povo ao satélite celestial.
Blomkamp encarrega-se de retirar seriedade ao seu filme, despachando a narrativa em cerca de 100 minutos (e o mal não viria daí, é claro!), onde o pathos se dilui em personagens preguiçosas, estereotipadas, demasiado esquemáticas, que nunca se levam a sério num filme que claramente pede muito mais. Convém clarificar: o problema desta obra (?) não é a economia de narrativa, é antes a ausência de espessura dramática; é não definir com honestidade o seu propósito (começamos por pensar que assistimos a uma parábola de ficção científica e sai-nos um sucedâneo scy-fy de série B, com um argumento atabalhoado, com momentos de humor involuntário, que nem com os "clássicos" de Chuck Norris consegue rivalizar). Muitos dirão que se trata de um filme marxista (e podia ser!) sobre o presente (os pobres têm que se sujeitar a cuidados hospitalares limitados e deficientes; os ricos possuem em casa máquinas que garantem a cura de todas as enfermidades); outros relevarão uma visão distópica que resulta das desigualdades sociais bem acentuadas no momento presente (e esse ponto de vista está no filme); mas quantos e tão bons filmes foram fabricados com mensagens semelhantes (e aqui incluímos "Distrito 9")? E tanto dinheiro gasto para quê? O cenário é ainda mais trágico ao sabermos que Neill Blomkamp teve total liberdade criativa (coisa aparentemente rara nos estúdios de Hollywood).
"Elysium" não se salva nem enquanto filme de verão. Está até uns furos bem abaixo de "WWZ", de Marc Forster, outro filme falhado que marcará tristemente esta época estival. Por entre as ruínas desta tragédia cinematográfica, só mesmo a prestação de Matt Damon merece algum respeito (todos os outros atores passeiam-se à deriva sem bússola que dê clareza e dignidade às personagens que interpretam). Definitivamente, também Hollywood foi contagiada pela silly season.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Um livro para o verão: "Em Parte Incerta" - de Gillian Flynn
A literatura contemporânea assume contornos comerciais que, em nome da competitividade entre editoras e do combate à crise económica, levam a valorizar o embrulho - leia-se: o marketing - em detrimento do conteúdo. Este vai empobrecendo à medida que autores como Dan Brown e Nora Roberts dominam o mercado livreiro. No meio destes engodos surgem alguns livros e autores que facilmente são confundidos com produtos industriais e superficiais. Este pode ser o caso do romance "Em Parte Incerta", de Gillian Flynn, escritora norte-americana que, em boa verdade, é uma das maiores revelações da literatura do início do século XXI.
Trata-se a referida obra de um thriller negro, densamente psicanalítico sobre os segredos e mentiras de um casal, que se torna profundamente perturbador por descobrirmos naquele marido e naquela mulher talvez o retrato cru e sem piedade do modelo familiar da classe média na civilização ocidental deste século. Começamos a leitura do romance por acreditar em Amy (a mulher) e terminamos a torcer por Nick por nos identificarmos com a sua frágil humanidade.
Há, de algum modo, na novela de Lynn uma fria análise da emancipação feminina e das suas consequências na estabilidade da grupo familiar tradicional. Mas, sendo o autor uma mulher, não encontramos por aqui qualquer visão sociológica que se possa designar como machista. E isso torna o romance ainda mais interessante e intrigante.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Ética e Política em Democracia (3)
Perguntar-se-á: como pode alguém com o currículo de Joaquim Pais Jorge chegar ao Governo? Tristemente, com a rotação há muito instituída do bloco central de interesses e clientelas, isto já nem sequer é uma novidade. No presente caso, resultará, sobretudo, do enlevo da ministra com as qualidades técnico-profissionais do ex-Secretário de Estado, esquecendo o necessário pré-requisito para a escolha de quem deve ocupar responsabilidades de governação de um país democrático: exigência ética. Deve, portanto, o político ser um cidadão exemplar? Sim, deve. Caso contrário, como podem os eleitores compreender, por exemplo, a necessidade de medidas de austeridade?
O perfil tecnocrata e a notória falta de sensibilidade política de Maria Luís Albuquerque explicarão este lamentável episódio. Mas o que anda a fazer Passos Coelho? Deixa que tudo lhe passe ao lado?
domingo, 11 de agosto de 2013
Ética e Política em Democracia (2)
Há, pelo menos, três critérios que um candidato a governante deve preencher: competência técnica, conduta ética e coerência política. Joaquim Pais Jorge só satisfazia o primeiro! Não custa admitir que seja um perito nas engenharias financeiras e contabilísticas que andou a vender, em anos recentes, por vários estaminés. Mas não cumpria nem os mínimos éticos (ao dispor-se a dar a cara por uma causa e pelo seu contrário) nem a necessária coerência política (ao saltar do colo dos escroques Sócrates e Paulo Campos para o colo de Passos Coelho e Maria Luísa Albuquerque). São, por isso, inoportunas a arrogância e o topete de Joaquim Pais Jorge ao queixar-se publicamente da «baixeza» e do «lado podre da política» na hora da sua tardia partida.
sábado, 10 de agosto de 2013
Ética e Política em Democracia (1)
Mais grave do que a demissão de Joaquim Pais Jorge foi a sua nomeação para o Governo. Porque não pode valer tudo em política e, muito menos, na atividade política exercida em nome do Estado. Um governante não pode passar de um lado para o outro das barricadas como se tudo fosse possível e admissível. Não pode ter andado a vender swaps ao Governo anterior com o intuito de disfarçar o défice público e vigarizar as estatísticas do Eurostat para, no Governo seguinte, aparecer a renegociar os estragos causados pelos swaps. Não pode ter sido colocado na Estradas de Portugal por um famigerado vulto do socratismo, Paulo Campos, e aí se tornar responsável por alguns dos contratos ruinosos para o Estado de PPP rodoviárias para, na encarnação posterior, entrar no Governo que fez da denúncia das PPP uma das suas bandeiras distintivas.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Banda sonora para o verão: "Electric" - Pet Shop Boys regressam à pop solarenga
Em matéria sonora, a subtileza nem sempre foi apanágio da pop dirigida às pistas de dança. Neste contexto, todavia, os Pet Shop Boys sempre primaram pela procura de formas musicais que transfigurassem estéticas, de alguma forma, clássicas. Depois de um disco outonal, "Elysium", lançado nos últimos meses de 2012, editaram aquele que figurará como um dos melhores LPs deste verão, "Electric". Ao contrário do álbum anterior, de pendor intimista e introspetivo, trata-se de uma obra assumidamente hedonista e despretensiosa, orientada para as pistas de dança (como já haviam sido "Disco" e "Introspective", dois registos incontornáveis da década de 80) mas com o toque clássico singular da dupla britânica. "Thursday" e "Vocal", os dois temas que encerram "Electric", são duas canções pop (quase) perfeitas.
Pet Shop Boys - "Thursday"
terça-feira, 30 de julho de 2013
"Dentro de Casa" - Mayorga por Ozon
Germain (Fabrice Luchini em estado de graça) é um professor de francês dedicado mas pretensioso. Escritor falhado, tem sempre a cultura no bolso e uma frase feita na boca. Diz ele que se sente preparado e motivado para mais um ano letivo porque passou o verão a ler Schopenhauher. A mulher, Jeanne (Kristin Scott Thomas definitivamente instalada no cinema francês), galerista de arte contemporânea (que o marido detesta), aconchega-lhe a frustração rotineira dos dias passados a corrigir testes de alunos sem interesse. Só que um deles, Claude Garcia (Ernst Umhauer num registo suavemente perverso), começa a surpreendê-lo. As redações deste aluno têm um surpreendente valor literário para um rapaz de 16 anos. O professor vai criando uma relação cada vez mais próxima com Claude, incentiva-o a continuar a escrever e começa a ansiar pelo que regularmente sai da pena do jovem: este aluno brilhante não só descreve com ironia fina os clichés de uma família pequeno-burguesa, a de Rapha, seu colega de turma, como deixa no ar uma perversa e proibida paixão pela mãe deste último, Esther (uma belíssima Emmanuelle Seigner), que está para a narrativa como o sal para a comida. Todavia, o texto, aparentemente ficcionado, está perigosamente ligado à realidade, como se o que se escreve fosse anúncio do que está para acontecer.
O pai e filho, ambos de nome Rapha, são declaradamente broncos; Esther é uma dona de casa naïf; mas é pelos olhos do casal Germain, levados pelo silêncio insolente de Claude, que François Ozon põe em prática a sua crítica de costumes mordaz, fazendo-nos entrar num jogo algo thrillesco: aquilo que se passa é a realidade, ou antes o motor de uma ficção que os voyeurs Germain desejam? Preso entre a estética de Woody Allen e a inspiração flaubertiana (não é de modo fortuito que o liceu onde grande parte da ação do filme se situa se chame, precisamente, Flaubert), confortado pelo seu final redondo (diferente do final da peça que Ozon adapta, "O Rapaz da Última Fila" do dramaturgo espanhol Juan Mayorga) e pela paródia intelectual francesa (são inúmeras as referências literárias que, ironicamente, pontuam a ação), "Dentro de Casa" parece responder a um dos seus diálogos: "A arte, em geral, não nos ensina nada e ainda bem."
Mas, acima de tudo, a película em análise testemunha uma paixão lúdica pelo fait divers, um savoir faire e uma mecânica de fabricação, assente numa matriz popular, que François Ozon consegue sempre imprimir nas suas obras.
Trailer de "Dentro de Casa" - de François Ozon
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Banda sonora para o verão: Sound of Contact - "Dimensionaut"
Simon Collins, filho do célebre baterista e compositor Phil Collins, parece fazer jus ao ditado popular que postula que "filho de peixe sabe nadar". Com a sua emergente banda de prog rock, Sound of Contact, acaba de lançar o primeiro opus de uma carreira que se prevê fulgurante. O disco chama-se "Dimensionaut" e é de uma energia e criatividade rock à altura dos saudosos Genesis de "Abacab" e "Invisible Touch". O álbum é tremendo, viciante, obrigatório. Melhor só talvez "Genesis Revisisted II" do subvalorizado Steve Hackett, ou "English Electric" dos Big Big Train (já analisado neste blogue). Mas o ano ainda vai só a meio.
Sound of Contact - "Closer to You"
quarta-feira, 3 de julho de 2013
E agora?
A profunda crise em que o país está imerso, exige ação imediata. Na verdade, não é possível esperar mais tempo para dar, interna ou externamente, um sinal de que não se perdeu absolutamente o norte e de que o poder não caiu na rua. É o momento de demonstrar, por ações e não apenas por palavras, que Portugal está primeiro e que o futuro dos portugueses deve ser a prioridade da classe política.
Com o Governo a desmoronar-se, cabe ao Presidente da República a iniciativa urgente de acionar as saídas constitucionais adequadas e assumir o papel de garante da esperança possível. E a todos os partidos cabe o imperativo categórico de colaborar responsável e ativamente.
A maturidade e a capacidade de sacrifício que os portugueses têm demonstrado não merecem outra coisa que não seja a reflexão serena e a decisão concertada da classe política - verdadeiramente devedora do povo, a quem prometeu servir. Os portugueses têm o direito de não esperar menos que isto. Afinal não foi por culpa da sufocada e quase extinta classe média que a crise entrou e o risco gravíssimo de um segundo resgate ameaça a sua vida. A vida de tantas famílias.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Imagens para uma noite de verão: "Tabu" - de Miguel Gomes
Uma idosa temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada em África, nos tempos do colonialismo.
Exposta deste modo, a sinopse de "Tabu" não ilustra a qualidade da obra de amor à sétima arte assinada por Miguel Gomes. À semelhança do disco sob escrutínio no post anterior, "Tabu" exige ser experienciado. Não se pede o mesmo que muitos críticos em relação a boa parte da cinematografia cá do burgo, isto é, a película de Miguel Gomes não implica uma predisposição especial (leia-se: paciência) por parte do público. Antes pelo contrário, "Tabu" é uma fita que se dá espontaneamente ao espetador, independentemente da sua cinefilia ou resistência a uma certa estética visual.
Dividido em duas partes - manifestando, talvez, um desejo de classicismo -, "Paraíso Perdido" e "Paraíso", respetivamente, "Tabu" é uma fita que parece saída de outro tempo, talvez de um tempo que transcende cânones cinematográficos, apesar da vontade do autor em aproximar-se de forma quase explícita do melodrama. Com a sua terceira longa-metragem, Miguel Gomes desenhou um filme poético, uma obra inclassificável (e isto é um elogio), arriscada, contra a corrente e à altura de objetos incontornáveis como "Tempos Difíceis" de João Botelho, e "O Sangue" de Pedro Costa.
Trailer de "Tabu"
domingo, 30 de junho de 2013
Banda sonora para o verão: Big Big Train - "English Electric Part One & Part Two"
Big Big Train é uma banda com vinte anos de história registada numa obra discográfica monumental, marcada por canções épicas e orquestrações grandiloquentes. Em boa verdade, não há palavras que racionalizem, sobretudo a quem nunca teve o privilégio de deleitar os seus ouvidos com a música inspiracional daquela banda britânica, as texturas e harmonias, o fulgor melancólico, a nostalgia e as histórias que levitam etéreas na arte dos Big Big Train. Estamos, portanto, diante de um monumento sonoro praticamente desconhecido em terras lusas, mas - garanto - trata-se de um autêntico fenómeno de culto que tem merecido textos profundamente emotivos em boa parte da imprensa anlgo-saxónica.
O mais recente opus dos Big Big Train é "English Electric", disco dividido em duas partes gravadas nas mesmas sessões, mas editadas em alturas diferentes: a primeira em setembro de 2012 e a segunda em março de 2013. Vale bem a pena comprar os dois discos - estão a bom preço na amazon. Ouvi-los é entrar num universo sonoro incomparável com qualquer outro registo; é penetrar em poemas (en)cantados que narram histórias de comboios a vapor em viagem pela Inglaterra rural do início do século XX; é sentir o odor da fuligem saída das minas de carvão; é testemunhar o fim de um tempo, de um modo de vida e de uma certa paisagem; é perscrutar o perene no efémero; é procurar no verão sinais do outono.
Big Big Train - "Curator of Butterflies"
terça-feira, 18 de junho de 2013
"Parto" - os espaços da morte
"Parto", filme de António Borges Correia, bem que se podia chamar "Requiem pelo cinema português". Na verdade, se a película - belíssima, afirme-se desde já - reflete acerca do fim do culto da morte num mundo globalizado, pode ser lido também como metáfora para o lento definhar do cinema português. Digo lento, na medida em que a crise na sétima arte produzida em solo nacional já se arrasta há mais de duas décadas, tendo os três últimos governos desferido os golpes mortais a um cinema em agonia e, não fosse um ou outro foco de resistência individual (de que "Parto" é um ilustre exemplo), já se consideraria moribundo.
A estrutura narrativa de "Parto" é simples: um agente funerário precisa de ir buscar o corpo de um homem a um lugarejo escondido num vale da Serra da Peneda. Com a colaboração de dois amigos, monta a urna numa pick-up (uma vez que não há outra forma de chegar ao destino) e seguem serra acima. Pelo caminho, cruzam-se com personagens pitorescas, gente com histórias de emigração forçada mas que acabaram por regressar à terra onde nasceram. Trata-se, portanto, de um filme telúrico, mais próximo do cinema de John Ford que do de Manoel de Oliveira, expondo breves apontamentos sobre o ritual da morte em tempos passados e acentuando o pendor metafísico da obra ao nos revelar a rotina, a mundividência e os últimos dias do homem que partiu.
"Parto" foi editado em DVD com o selo da zulfilmes.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Banda sonora para a Primavera (21)
Em 2007, Gazpacho, banda norueguesa responsável por parte da revitalização e prestígio reconquistados pelo formato inclassificável do art-rock (designação que funciona como variante do rock progressivo), gravaram o seminal "Night", obra concetual dividida em cinco partes mas que na verdade constituem um opus único. Obra noturna maior, trata-se da narrativa etérea de um sonho no momento do clímax onírico (aquele que Descartes descrevia no célebre "Discurso do Método" ao referir-se à confusão que resulta na mente do sujeito quando, de repente, ao despertar de um sono profundo não distingue com clareza a passagem para o estado de vigília - estarei ainda a dormir ou já estou acordado?). "Night" foi agora regravado e reeditado numa edição de luxo, acompanhada por um lindíssimo booklet da responsabilidade do artista plástico espanhol Antonio Seijas. A música contida no CD é de uma beleza hipnótica, tornando-se viciante (não sai da minha aparelhagem há mais de duas semanas). Ainda por cima, está a muito bom preço na Amazon.
Gazpacho - "Upside Down"
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