domingo, 19 de dezembro de 2010

"A Golpada" - um clássico exemplar

Vencedor de sete Óscares da Academia, em 1973, "A Golpada" é um dos filmes mais aclamados de sempre pelo público e pela crítica. Trata-se de uma comédia cuja acção decorre nos anos trinta do século XX, em plena época da Grande Depressão, protagonizada por dois vigaristas (o sempre jovial Robert Redford e o subtil Paul Newman) que pretendem arruinar um mafioso (o injustamente esquecido Robert Shaw), responsável pela morte de um dos seus parceiros. A forma como este inolvidável par de charlatães prepara a golpada contra o inimigo torna-a uma das mais espectaculares armadilhas da história do cinema, culminando num surpreendente desfecho. 

Crítica explícita à facilidade com que os regimes democráticos, sobretudo em épocas de crise económica, cedem à corrupção e caem num relativismo axiológico, "A Golpada" é uma obra imperdível realizada por um dos últimos cineastas clássicos de Hollywood - George Roy Hill.

Trailer de "A Golpada", de George Roy Hill



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Banda sonora para o Outono (14)

Nick Cave é um verdadeiro artista: camaleónico, divergente, irónico, romântico, versátil. Já deu provas não só como músico singular, mas também enquanto romancista, poeta e argumentista tem demonstrado uma criatividade rara. Avesso a modas, seguindo o seu próprio caminho e fiel ao seu universo existencialista, acabou de lançar o opus 2 do seu último alter-ego: Grinderman. Não se pode considerar este como um álbum que traga algo de novo à sua já extensa discografia; continua, no entanto, a ser musicalmente interessante e, sobretudo, esteticamente ousado. Grinderman 2 é, portanto, um disco que merece ser escutado sem pressa, com disponibilidade, atentamente, sempre.

"Palaces of Montezuma" - Grinderman

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Portugal, país de desigualdades sociais

O livro "Desigualdades Sociais 2010 - Estudos e Indicadores", conclui que Portugal é o segundo país da União Europeia (o primeiro é a Letónia...) onde a desigualdade na distribuição de rendimentos é maior. Ainda assim, Sócrates e seus comparsas continuam a discursar sorridentes.

domingo, 12 de dezembro de 2010

"Afogados" - a Espanha em "pulp fiction"

"Afogados" é uma insólita obra escrita por Carlos Eugenio Lopez, que analisa a Espanha através da perspectiva de dois anónimos gangsters em travessia por La Mancha numa madrugada de Outono. Na bagageira do carro transportam o cadáver de um imigrante narroquino e, enquanto viajam, estabelecem um diálogo ininterrupto acerca do passado de Espanha, do presente e do futuro. A estrutura narrativa é mesmo essa: um diálogo contínuo sem qualquer interferência de um narrador presente ou ausente, como se de um filme ou de uma peça de teatro se tratasse. A nós, leitores, resta-nos acompanhar os discursos desconcertantes dos dois filósofos de pacotilha, que reflectem sobre amor, sexo, infidelidade, morte, religião, política, imigração e até o sentido da existência. Como num filme de Quentin Tarantino...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Vencer" - teatro trágico

Marco Bellocchio é um cineasta genial (talvez o mais interessante cineasta italiano no activo) e, em tempos de crise também no cinema europeu, ele é um dos poucos sobreviventes do que se convencionou chamar de cinema de autor. "Vencer", a sua última e multipremiada obra, é um ensaio operático visionário que toma Mussolini como pretexto para uma profunda parábola sobre a megalomania política. 

O ponto de partida de "Vencer" é a relação amorosa do egocêntrico ditador italiano com Ilda Dalser, mãe do primeiro e renegado filho de Mussolini, que vendeu todos os seus bens em prol da ascensão do homem que amava obsessivamente. Separados à força, Ida Dalser e o seu filho, viveram os últimos anos num manicómio sob uma violenta clausura. 

O filme de Bellochio assume-se também como reflexão sobre a forma como o poder corrompe o amor. A montagem, os planos, a luz, são soberbos, transmitindo ao espectador uma sensação de asfixia, tal a densidade e aproximação da câmara à loucura e paranóia esquizofrénica do par romântico da obra.

Trailer de "Vencer", obra de Marco Bellochio

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sócrates, o humorista (3)

"Portugal não precisa de nenhuma ajuda."
José Sócrates, Reuters

Esta frase, proferida pelo ainda primeiro-ministro de Portugal, mereceria uma entrada alternativa, a saber: "Sócrates, o autista".

domingo, 5 de dezembro de 2010

(Re)Visões sobre a 2ª Guerra Mundial (3) - estrangeiros na Resistência francesa

"O Exército do Crime", de Robert Guédiguian, aborda a colaboração de imigrantes judeus, polacos, húngaros, romenos, italianos, espanhóis e arménios com a Resistência francesa. Um episódio significativo, pelo seu simbolismo, da 2ª Guerra Mundial que, apesar da sua importância e potencial dramático, nunca tinha sido reconstruído em celulóide. Guédiguian faz justiça a esses heróis num filme trágico de recorte clássico, à altura das melhores obras deste género cinematográfico.

Na Paris ocupada pelo exército Alemão, o poeta e operário Missak Manouchian lidera um grupo de jovens imigrantes de segunda geração determinados a lutar pela liberdade do país que amam, França, o berço dos Direitos do Homem. O grupo, que ficou conhecido pela propaganda nazi como "exército do crime", foi condenado à morte por fuzilamento em Fevereiro de 1944. 

A ver urgentemente, quanto mais não seja para relembrar que nestes tempos de crise a ameaça de novas ditaduras torna-se perigosamente iminente.

Trailer de "O Exército do Crime", de Robert Guédiguian

sábado, 4 de dezembro de 2010

Banda sonora para o Outono (13)


"Guitar Heaven - The Greatest Guitar Classics of All Time", à parte o hiperbolizado subtítulo, é um disco quente para este frio fim de Outono. São doze clássicos do rock reinterpretados pelo virtuosismo de Santana, que neste novo disco assina o seu melhor trabalho desde o já icónico "Supernatural". É um álbum equilibrado, pelo que não há qualquer tema superlativo. Destaco, no entanto, o charme discreto das baladas "While My Guitar Gently Weeps" e "Little Wing", originais de George Harrison e Jimmy Hendrix, respectivamente. India.Arie e o sacrossanto Joe Cocker emprestam-lhes as fabulosas vozes.

"Little Wing" - Santana & Joe Cocker
4:53

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"O Fio da Navalha" - a perpétua busca pelo sentido da existência

W. Somerset Maugham foi um dos maiores escritores de língua inglesa de sempre. Li há pouco tempo "O Fio da Navalha", um actualíssimo não-romance que mistura o estilo autobiográfico com a ficção. Narra a história de um escritor (Somerset Maugham, precisamente) que se cruza ao longo de três décadas (dos anos 10 aos anos 30 do século XX) com Larry, um gentil norte-americano em ruptura com os valores do capitalismo e em perpétua busca pelo sentido da vida. 

Em "O Fio da Navalha", Maugham descreve o apogeu económico da América nos anos 10 e 20 até aos efeitos da Grande Depressão na década de 30. Por entre o deslumbre capitalista e a turbulência económica, acompanhamos a saga de Larry pela Europa e Índia, sempre à procura de respostas para as questões filosóficas de sempre. Trata-se de um bom livro, que nos faz repensar acerca da alienação e ilusão causadas pelo fascínio exercido pelos bens materiais na nossa vida. Afinal, ser e ter nunca foram sinónimos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"Mad Men" - as raízes da sociedade de consumo

A série "Mad Men" é um autêntico tratado visual acerca da sociedade contemporânea, assente em fundamentos imagéticos cujo único propósito é produzir para consumir, numa dialéctica que se estende ao consumir para produzir. Esteticamente a série é um portento cromático, sustentando a acção nos detalhes (figurinos, cenários, gestos dos personagens). Na verdade, aparentemente (mas  aparentemente) nada se passa naquele superficial quotidiano (sub)urbano. 

A acção decorre no início da década de 60 do século passado e acompanha o dia-a-dia dos publicitários da empresa Sterling Cooper. Os homens são machistas e as mulheres ou são submissas donas de casa ou secretárias e telefonistas de executivos de sucesso. Este é o pretexto para uma reflexão acerca das técnicas de manipulação de massas, revelando-se afinal um não-drama sobre a sociedade ocidental contemporânea. A crise que estamos a sentir na pele deve ser compreendida a partir de "Mad Men". E a televisão não será mais a mesma.

"Mad Men" - opening credits

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Regresso

Por vezes, é necessário interromper o fluxo das ideias e deixar o pensamento repousar como uma folha em queda outonal lenta, deixando-se cair levemente sobre a terra molhada. E, em tempos de crise de afectos e de decréscimo económico, ético e cultural de uma nação à qual pertencemos e não temos como escapar, parar para reflectir sem pressões e prazos é fundamental. Trata-se de criar condições que permitam à alma voltar a crescer. Sim, interromper para não estagnar. Renascer. É disso que se trata. Estranho paradoxo que conduz ao progresso interior. Em tempos de crise...

Venha Dezembro!

"Long December" - Counting Crows
4:55

terça-feira, 19 de outubro de 2010

"Crimes e Escapadelas" - a ética da responsabilidade, por Woody Allen

Em 1989, Woody Allen assinou aquele que é, para os críticos mais exigentes, a sua obra maior - "Crimes e Escapadelas". Não alinho nessa posição, uma vez que são muitos os grandes filmes do cineasta norte-americano. No entanto, reconheço a seriedade e amargura com que Woody Allen aborda o tema da consciência moral e religiosa e a forma como cada ser humano se define nas escolhas que realiza. É talvez o filme mais assumidamente filosófico e pessimista do realizador, com referências que vão da matriz judaico-cristã ao existencialismo de Sartre e Camus, passando ainda pelo "Crime e Castigo" de Dostoievski. Quase duas décadas depois, Allen assinaria outra reflexão moral, mudando o cenário de Nova Iorque para Londres, em "Matchpoint", espécie de revisão da matéria dada, adaptando-a a um novo século.

domingo, 17 de outubro de 2010

País desgovernado

O governo liderado por José Sócrates continua as suas políticas de desgoverno. Vejamos:

i) permitiu que a Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) gastasse 150 mil euros num jantar comemorativo (?) do seu vigésimo aniversário;
ii) Deixou a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (DGCI) despender 29 253 euros por 3500 medalhas, 7500 por um vídeo, 24 467,50 em aluguer de equipamento audiovisual, 38 500 em serviços prestados por uma empresa, 47 413 no aluguer do Pavilhão Atlântico e 73 280 em serviços de catering para comemorar (?) - mesmo em tempos de austeridade económica e em que tantos sacrifícios se pedem aos trabalhadores portugueses - os seus 160 anos.

Ainda há quem leve a sério o Orçamento para 2011? Haja paciência para quem nos (des)governa com tanto cinismo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Liu Xiaobo

Liu Xiaobo foi, este ano, o vencedor do Prémio Nobel da Paz. Ao ler a notícia, fui transportado para o ano de 1989, mais precisamente para um dia do início do mês de Junho em que combinei com alguns colegas de escola vestirmo-nos de preto em memória e homenagem aos corajosos estudantes chineses que, na Praça de Tiananmen, enfrentaram os tanques do exército vermelho. Começou aí a minha aversão pela incoerência e hipocrisia dos partidos políticos que, à semelhança do que fez na altura o PCP, ignoraram e negaram o massacre em nome de ideais cegos ou das boas relações diplomáticas com a emergente e perigosa potência asiática.

Mas o que interessa agora é contentarmo-nos com a atribuição do Nobel da Paz a Liu Xiaobo, dissidente do regime comunista chinês que cumpre a injusta pena de 11 anos e que já dedicou o prémio às vítimas da Praça de Tiananmen. Nenhum órgão de comunicação social da China mencionou a distinção do seu concidadão e as autoridades de Pequim já se encarregaram de colocar a mulher do laureado em prisão domiciliária. 

Onde estão as vozes de Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã? Que posição assumem em relação à forma como o governo chinês respondeu ao anúncio da Academia Sueca?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"Os Dias da Rádio" - um Woody Allen inesquecível

Um dos maiores filmes de Woody Allen é "Radio Days", obra-prima que homenageia e deixa para a posteridade os anos de ouro da rádio, que decorreram na primeira metade do século XX - precisamente, antes do advento da televisão. 

Nos anos 80, Allen escreveu e realizou algumas das suas obras mais inspiradas, e "Os Dias da Rádio" surgiu numa época extremamente criativa do argumentista e cineasta norte-americano. Mais de vinte anos passados sobre a sua estreia, o filme mantém toda a sua frescura, humor e rogor de mise-en-scène.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Almeida Santos, o cínico

Almeida Santos surpreendeu os indígenas com mais uma pérola a figurar nos anais da democracia nacional. Desta vez, o presidente do PS afirmou que "o povo tem de sofrer as crises como o Governo as sofre". 

Que pena tenho dos governantes portugueses que, coitados, tal como nós, o povo, devem ter sérias dificuldades para esticar o magro salário e conseguir cumprir com as despesas da prestação da casa e do carro, da luz, da água e do gás, para além das despesas de saúde, do material escolar dos filhos...

Batemos, definitivamente, no fundo. A triste realidade nacional seria digna de uma tragédia grega. E todos sabemos quem seriam os protagonistas...

domingo, 10 de outubro de 2010

Dia Mundial da Saúde Mental

Foi criado em 1992 pela Federação Mundial da Saúde Mental para que as pessoas tomassem consciência da importância da saúde mental.

Este ano, um estudo da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa concluiu que Portugal é o país da Europa com mais doentes mentais. O estudo refere que, no último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psíquica. A mesma pesquisa revela ainda que, a nível nacional, as perturbações mais comuns são ansiedade, fobias e perturbações obsessivo-compulsivas.

Aproveito a efeméride para recomendar a leitura de "A Arte da Fuga", de Daniel Sampaio.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Em prol de uma melhor Educação (2)

"Aprender será, sempre, reconhecer. Reconhecer no sentido de reaprender as pequenas diferenças que nunca se tinham vislumbrado em tudo o que sabemos (tornando cada conhecimento mais simples, mais útil e mais humano).
É reconhecer como sinónimo de gratidão para com aqueles que tenham percebido que a tarefa preponderante de um educador não é fornecer conhecimentos mas não deixar que se apague o nosso desejo de aprender."
Eduardo Sá, Textos com Educação

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"Peeping Tom" - um filme moderno com 50 anos

Acabei de ver o clássico "Peeping Tom", de Micahel Powell, fita de uma modernidade impressionante. Na verdade, a ousadia formal do grande cineasta britânico enfia no bolso qualquer thriller contemporâneo. Trata-se de um exercício de estilo assumidamente freudiano sobre o medo e a repressão do desejo sexual, raramente replicado na história do cinema. De facto, poucos foram os cineastas que aprenderam bem a lição de Powell (Scorsese, De Palma e Jonathan Demme contam-se entre os poucos film makers genuinamente herdeiros de "Peeping Tom"). Tristes tempos estes, em que os grandes estúdios não toleram a presença de artistas. Parece que voltámos ao tempo das cavernas. Veja-se a fita e perceba-se porquê.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Banda sonora para o Outono (12)

Tom Petty é um verdadeiro dinossauro do rock. Preterido em favor de outros grandes heróis da guitarra que dedicaram a sua carreira a cantar os sucessos e fracassos do american dream, como Bob Dylan e Bruce Springsteen, Petty, a solo ou com os seus velhos companheiros de estúdio e de estrada, The Heartbreakers, é responsável por alguns dos melhores LP country-rock das décadas de 80 e 90. Este ano regressou em grande com um álbum de blues, com o sugestivo nome "Mojo". São 15 grandes canções com a guitarra de Petty a protagonizar momentos vibrantes e a voz do cantautor a exaltar a dimensão agridoce da vida, do amor e da liberdade. Amén!

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...