sábado, 15 de setembro de 2012

Ecologia e crise

A falta de visão de conjunto, a incapacidade de articular as diferentes escalas dos problemas, as diferentes agendas das dificuldades, que são as queixas mais frequentes aos processos de decisão política em curso, estão também a ocorrer no domínio da crise ambiental que estamos a atravessar e a propagar de forma irremediável.

Em boa verdade, estamos contínuamente a quebrar os elos, a eliminar conexões e as relações com o resto da Natureza, tornando-os cada vez mais precários. Vamos, como espécie, devorando o planeta Terra, como se ele fosse um mero armazém, e não o nicho, o corpo, o berço, onde a identidade humana ganha contorno, realidade e possibilidade de duração. A religião do crescimento prega a intensificação da perda desses laços e a vitória do olhar de armazenista sobre qualquer outro. Um armazenista que delapida, não que entesoura e preserva. Crescer significa consumir, significa intensificar o ritmo da devastação, do cortar de laços com todos os outros (espécies diferentes, povos ou populações mais frágeis), de aumentar mais e mais a pegada humana, de acentuar desmesuradamente a apropriação do mundo pela pilhagem devoradora, como ontem o fizemos pelo sangue, suor e lágrimas.

E esta devastação, deve causar-nos pena ou revolta? Talvez ambas as coisas, pois a sua natureza moral é aparentemente evidente. Mas, sobretudo, deve causar pena, pois o que está em causa mais do que um crime é um erro. E o erro remete sempre para uma mente embutida, ignorante, enviesada. As organizações, os Estados, os partidos e as empresas conseguem ser ainda mais egoístas, mais errados, mais idiotas do que os indivíduos. À sucessão das suas decisões, surpreendentemente destituídas de sensatez, chamamos História, ou, como disse um dia Konrad Adenauer, "a soma das coisas que poderiam ter sido evitadas...".

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Legendar o silêncio icónico (23) - a Síria também somos nós (3)

2 de setembro de 2012. Um menino sírio, ferido durante os confrontos na cidade de Alepo, é tratado num hospital próximo da frente de guerra. O que lemos no seu olhar? Clemência? Tréguas? Socorro? O absurdo da guerra? Com certeza que para esta criança o mundo é todo assim. Que marcas, porventura irreversíveis, a guerra deixará em tantas crianças cuja infância foi roubada?

domingo, 9 de setembro de 2012

Banda sonora para o verão (24) - Squackett

Squackett é o nome de um projeto musical que tem vindo a unir a criatividade de dois veteranos do rock progressivo: Chris Squire (baixista dos Yes) e Steve Hackett (guitarrista dos Genesis durante a primeira década de atividade desta histórica banda). "A Life Within a Day" é o título do álbum que lançaram há 3 meses atrás. 

Não sendo uma obra-prima (não seria, aliás, de esperar isso de dois músicos que já não têm nada a provar ao mundo e que apenas fazem a música que bem lhes apetece e lhes dá prazer), é um disco interessante, que contínuamente solicita repetidas audições. Estando uns furos abaixo do resultado final dos trabalhos das bandas onde estes virtuosos instrumentistas alcançaram popularidade (sobretudo, ao nível do trabalho vocal a cargo dos dois Squackett, bem aquém das vozes distintas de Jon Anderson e Peter Gabriel, primeiros frontmen dos Yes e dos Genesis, respetivamente), ainda assim, em "Life Within a Day", estamos perante um longa duração que transparece um genuíno amor à música por parte de artistas que exigem de si mesmos uma permanente vitalidade. 

Em boa verdade, este poderia ser um disco de uma banda nova, tal a frescura ao nível da produção das canções. E há quatro momentos de autêntica antologia pop (e não, como seria de esperar, prog rock) a assinalar: Divided Self, Aliens, Sea Of Smiles e Can't Stop The Rain. São canções bem orelhudas, que dariam 4 perfeitos singles se o airplay das rádios nacionais se pautasse pelo bom gosto.

Squackett - "Aliens"

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

"Jesus Cristo bebia cerveja" - descobrir Afonso Cruz

Jesus Cristo bebia cerveja  é um romance de um dos escritores mais fortes e originais da literatura portuguesa deste século. Nome a reter: Afonso Cruz. Estamos perante um escritor consumado, que, como bem referiu Miguel Real no Jornal de Letras, é "tão original quanto profundo", capaz de criar personagens comoventes na sua plena humanidade: frágeis, simples e complexos, contraditórios, bons e cruéis, sonhadores e pragmáticos. Mais do que isso, o autor consegue a proeza de fazer daquele romance um melting pot de filosofia, ciência, religião e senso comum, envolvendo o leitor da primeira à última página. 

Desafio o leitor a comprar Jesus Cristo bebia cerveja e a tentar adiar a leitura de mais um capítulo. Sim, porque se trata de um romance de leitura compulsiva. No fim da última página fica a vontade de procurar mais obras de Afonso Cruz, e já está aí um novo livro, por sinal extremamente interessante: Encilcopédia da Estória Universal: Recolha de Alexandria.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Legendar o silêncio icónico (22) - a Síria também somos nós (2)

24 de agosto de 2012, cidade de Alepo, norte da Síria. Um menino sírio que ficou ferido quando uma bomba, lançada pelas forças do regime, atingiu a sua casa espera num hospital para ser tratado. Na expressão do seu rosto podemos ler toda uma infância roubada.

Quantos de nós param para refletir sobre o sofrimento de milhares de crianças que são, diariamente, fustigadas pelo drama da guerra? Quantos, de entre nós, procuram imaginar tal dor? Quantos são capazes de pensar no quão afortunados somos por viver em paz?

Infelizmente, são sempre muitas as pessoas que não pensam nem sentem para além do seu umbigo e, em vez de aproveitarem a paz, preferem a incerteza da guerra.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Tony Scott (1944-2012)

Como muitas outras pessoas da minha geração, descobri o cinema de Tony Scott com a sua segunda longa-metragem, Top Gun (1986). Escusado será descrever a forma como tal espetáculo visual me impressionou aos 14 anos de idade. Nunca tinha visto nada que se comparasse àquele sedutor objeto filmado nos céus. Claro que o filme fez mais pela carreira de Tom Cruise e pela reputação da Força Aérea do que pela Sétima Arte. Mas não devemos desvalorizar Top Gun por pretender ser tão e somente um (muito bom) entretenimento, dado que o cinema é, acima de tudo, uma arte de massas e é nessa matriz popular que devemos incluir uma parte considerável da filmografia de Tony Scott. Neste sentido, O Caça-Polícias 2 (1987), Dias de Tempestade (1990), A Fúria do Último Escuteiro (1991), Adepto Fanático (1996), Domino (2005) e Imparável (2010) permanecerão enquanto objetos exemplares da arte de criar grandes espetáculos sem perder marcas autorais. Na verdade, é na forma de filmar que o cinema de Tony Scott sempre se distinguiu dos demais: câmara precisa mas sempre em movimento, uma montagem frenética, personagens definidos nos primeiros cinco minutos de filme, violência crua e doses de testosterona em personagens herdeiros da filmografia viril de um Howard Hawks ou de um Samuel Fuller.

No entanto, Tony Scott foi revelando uma urgência de complexidade em muitas outras películas, sendo altura de rever e revalorizar obras como Fome de Viver (uma inovadora história de vampiros realizada em 1983 e que ainda hoje empalidece as recentes revisitações da história criada por Bram Stocker; é também um filme pop protagonizado por um impressionante David Bowie e uma belíssima Catherine Deneuve), A Vingança (um drama adulto e intensamente violento, realizado em 1990), True Romance (obra crua de 1993, a partir de um guião de Quentin Tarantino), Maré Vermelha (drama de cortar a respiração, com dois excelentes Denzel Washington e Gene Hackman; 1995), Inimigo Público (pesadelo orwelliano que nos revelou todo o potencial político da internet; 1998), e três outros filmes que prolongam uma das associações artísticas mais bem sucedidas do cinema norte-americano, isto é, aquela que uniu em amizade e em trabalho, Tony Scott e Denzel Washington: Homem em Fúria (2004), Déjà Vu (2006) e Assalto ao Metro 123 (2009). Os dois colaboraram em 5 filmes de qualidade superlativa.

Foi com realizadores como Tony Scott que a indústria de Hollywood construiu uma série de obras que hoje estão inscritas na memória coletiva. Apesar de uma ou outra fita menor (tal como outrora também artesãos como Michael Curtiz ou Henry Hathaway tiveram alguns tiros ao lado), Tony Scott ficará, com certeza, na história do cinema como um realizador visionário, singular e - esperemos - incontornável.

sábado, 1 de setembro de 2012

E foi agosto...


E foi agosto
Por entre a espuma dos dias
Embalado pelas ondas do entardecer
E agasalhado pelo sorriso de uma criança

Galga as rochas
Atira o pequeno seixo ao mar
Fá-lo saltar sobre a água salgada
E, assim, enche-te de maresia

Por agora foi agosto
Que regressará, retornará um dia,
No próximo verão, tenho a certeza,
O teu rosto será ainda mais exultante!

E foi agosto
Em teus olhos.
Sabes, eles são o Sol
Que em ti se faz a aurora de um novo dia.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

"4:44 Último Dia na Terra" - a obra-prima de Abel Ferrara

Descobri Abel Ferrara ainda durante a minha adolescência, nos últimos anos da década de oitenta. Curiosamente, numa altura em que o seu nome não era levado a sério pela mesma crítica que agora faz de cada novo filme daquele cineasta nova-iorquino um acontecimento. Ainda assim, via os seus filmes de baixo orçamento com algum fascínio, neles percecionando o alvor de um autor. "Fear City", "China Girl", "Cat Chaser" e "King Of New York" permanecem películas de culto a necessitarem de urgente reavaliação, face à credibilidade conquistada por Ferrara a partir da década de noventa, sobretudo graças a "Bad Lieutenent" (filme que o consagrou como legítimo herdeiro de Scorsese).

"4:44 Último Dia na Terra" é uma profundíssima reflexão em torno do sentido da existência, das escolhas que definem o que somos e da irreversibilidade das mesmas. Trata-se de uma fita complexa, soberbamente interpretada por Willem Dafoe e Shanyn Leigh, que assumem o papel de um casal a contas com a vida, o passado, o presente e o futuro que lhes espera após o apocalipse (sim, o futuro, já que a espiritualidade e a procura da redenção são traços comuns da demanda dos personagens criados por este cineasta). A Nova Iorque de Ferrara é preenchida por poucos personagens, todos eles reais, divididos entre os prazeres da carne e as necessidades espirituais. 

Após o visionamento da obra em análise, vem à mente uma questão essencial: será Abel Ferrara o último dos cineastas urbanos? Duas coisas são certas: (i) o filme deixa-nos sem fôlego; (ii) é o melhor filme deste verão. 
Trailer de "4:44 Último Dia na Terra"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Banda sonora para o verão (23) - "Lost In The New Real"

Arjen Anthony Lucassen é um músico holandês de 52 anos, corresponsável pelo ressurgimento e revitalização do rock progressivo nos últimos dez anos. No início da sily season editou um ambicioso disco duplo, "Lost In The New Real". Trata-se de uma obra conceptual, cuja história sci-fy é narrada de forma arrepiante por Rutger Hauer (ator de culto, também holandês, que na década de 80 trabalhou com os últimos cineastas clássicos em filmes como "Fim de Semana de Osterman", de Sam Peckinpah, "Blade Runner", de Ridley Scott, "A Mulher Falcão", de Richard Donner, "Flesh and Blood", de Paul Verhoeven, "Terror na Auto-Estrada", de Robert Harmon, "Fúria Cega", de Philip Noyce, entre outros filmes de culto): num futuro indeterminado vive-se uma distopia cibernautica que anulou a dor e a morte, mas onde a perceção humana do real é manipulada (aliás, a questão central do disco é saber distinguir o real do virtual) e o preço a pagar é a hipervigilância de um big brother que acompanha todos os nossos passos, decide quem pode procriar e as escolhas que podemos fazer. Ah, nesse espaço e tempo (o new real que dá nome ao álbum) já tudo foi inventado e está registado numa imensa base de dados (ouça-se a canção deliciosamente retro Pink Beatles In A Purple Zeppelin). Deprimente, sobretudo para quem precisa de criar para se sentir vivo (o paraíso artificial é viajar em sonhos por múltiplas realidades).

É um pesadelo orwelliano, contaminado pelas distopias digitais imaginadas por Philip K. Dick. E já que de música se trata, pois bem, fiquem sabendo que o disco de Arjen Lucassen é um autêntico caleidoscópio musical que apetece ouvir vezes sem conta.  

Arjen Anthony Lucassen - "Lost In The New Real"


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Se isto é um homem" - obra incontornável de Primo Levi

Escrito entre o final de 1945 e o início de 1947, ou seja, imediatamente após os factos narrados, Se isto é um homem é, antes de mais, a narrativa seca e minuciosa, a crónica submissa e por vezes intencionalmente humilde, de uma experiência extrema: um ano vivido por Primo Levi (1919-1987) no campo de concentração de Auschwitz, vítima e testemunha do maior horror que o século XX produziu. E um horror que ressalta em toda a sua evidência "natural", justamente pela firme recusa por parte do autor de qualquer forma de amplificação retórica, de qualquer forma de "fingimento" literário, ainda que legítimo; um horror nu e cru, e totalmente autêntico: por isso mesmo, tanto mais aterrador, tanto mais iniludível e impossível de exorcizar.

Trata-se definitivamente de um testemunho sobre a condição humana, sobre os seus limites e os seus insuspeitáveis recursos, sobre a sua obstinada capacidade de conceber o bem e sobre a fragilidade das suas defesas perante a sugestão do mal. Não é tanto a relação carrasco-vítima que interessa a Levi (os carrascos raramente aparecem no livro, longínquos e ausentes, encerrados numa dimensão quase estranha), mas sim a que se cria entre uma vítima e outra, nas absurdas hierarquias internas, nos ingénuos conluios com o poder e nas igualmente ingénuas esperanças numa humanidade sobrevivente, no escárnio dos prisioneiros "veteranos" nos confrontos com os "noviços", ou de alguns grupos étnicos nos confrontos entre si.

E é no lúcido registo da terrível desumanização a que todos, sem exceção, se submetem no campo de concentração, que encontramos a mensagem da mais elevada e sofrida ética contida em Se isto é um homem. O juízo moral, naturalmente, não invalida nem ignora as responsabilidades individuais e coletivas, conseguindo sempre, no entanto, avaliá-las na base simples mas difícil da consciência humana: o inapelável tribunal dos justos que se encontra no fundo de cada um de nós, e que Primo Levi consegue inteira e miraculosamente trazer à luz do dia. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A urgência do silêncio na esplanada

Gostava de entender o outro, mas às vezes não chego lá. Há um outro que me atazana o juízo nestes dias de verão, porque ao fim da tarde, a melhor hora para contemplar em sossego o céu a alaranjar-se no oceano, insiste em ouvir música (?) minimal eletrónica, de graves intensos, que estremecem a areia, desfazem as conchas e afugentam os escaravelhos. Esse outro, que não concorda comigo, é uma multidão que se abana em fato de banho e biquíni num bar de madeira, emborcando bebidas coloridas, gritando inanidades aos ouvidos, enquanto o sol - pobre coitado que prefere o silêncio - lá se esconde no horizonte, lamentando que a natureza não lhe permita que acelere o processo. 

Devem render bastante estas licenças de décibeis, atendendo à propagação de festas do género nos últimos verões. E se tantos concelhos se orgulham de ter praias com bandeira azul, questiona-se que raio de classificação é esta que não contempla a poluição sonora. 

Se é assim ao lusco-fusco, durante o dia a coisa não melhora muito. Os veraneantes são maioritariamente citadinos e devem andar tão viciados no tráfego que, só para matar saudades, enquanto descansam na praia, regalam-se a ouvir o som de fundo das motas de água. São cada vez mais os pontos de entrada desses hediondos brinquedos. Quase desapareceram as gaivotas. Não me refiro aos pássaros, outros pobres coitados, mas das pequenas embarcações a pedal, demasiado simples para um mundo tecnológico. Gosto dos surfistas, que desafiam o mar com uma prancha, mas nunca desses demónios a motor, que empestam o mar de gasolina e barulho, deixando-o, tenha a certeza, um pouco menos azul.

O último grito da tecnologia é o silêncio - esse é o verdadeiro luxo. Mas é um luxo desprotegido e em vias de extinção porque, por mais que se levante o volume do silêncio, o ruído ouve-se sempre mais alto. O silêncio não se pode gritar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"Polissia" - um filme direto ao osso

Para que não restem dúvidas: "Polissia", magistralmente realizado por Maïwenn (que também participa como atriz), é um filme fabuloso. Posto isto, podemos ir direto ao osso.

Acompanhamos uma brigada de proteção de menores em França, imergindo sem rede num universo extremamente duro, difícil, nauseabundo e aversivo. Tal como a personagem interpretada pela própria realizadora também nós vemos através de uma lente a rotina de polícias que lutam diariamente contra pesadelos; sentimos no seu quotidiano o terror e a frustração por saberem que, muitas vezes, têm o seu grito de presença abafado; imaginamos quão difícil deve ser regressarem a casa, ao final do dia, com a memória de tantas crianças tratadas de forma indigna por adultos com - como diz um dos personagens da película - complexos de Édipo mal resolvidos; crianças a quem foi roubada a infância, obrigadas a participar no mundo insano e criminoso de adultos com fixações execráveis. O título do filme (com a palavra polícia escrita com dois 'ss') remete simultaneamente para o erro ortográfico naturalmente cometido por crianças a aprender a escrever e para os desejos distorcidos/doentios de pedófilos e de pais que não têm competências para cuidar dos seus filhos.

"Polissia" é uma obra brutal na verbalização dos casos das crianças vítimas de abusos e maus tratos, mas não menos forte quando nos embrenhamos na intimidade dos polícias. Estamos, portanto, perante um filme que se enquadra numa matriz realista em que poucos cineastas se têm destacado. Maïwenn consegue a proeza de agarrar o espectador do princípio ao fim, num filme de câmara cru, ousado e que nunca nos dá tréguas. Venceu justamente o prémio do júri do Festival de Cannes de 2011.

Trailer de "Polissia", de Maïwenn

terça-feira, 24 de julho de 2012

Nunca te deixei partir - dias 26 e 27 de julho, 21h45, no Rivoli

Nos dias 26 e 27 de julho apresentaremos os dois últimos espetáculos de "Nunca te deixei partir", adaptação da obra "Morreste-me", de José Luís Peixoto.

Trata-se do relato comovente e avassalador da morte de quem mais amamos, a descrição do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem sentida sob a forma de memória redentora. Em palco, 17 atores desdobram-se no papel do filho que procura ultrapassar o momento de dor. Formalmente, é um texto contínuo, aqui repartido por vários monólogos e pequenos diálogos.

"Nunca te deixei partir" é um espetáculo intenso e sincero, que procura celebrar a vida, o amor entre pais e filhos, os laços afetivos mais puros, sólidos e incondicionais. O elenco da peça é constituído por jovens que se dedicam a este projeto em regime de complemento curricular, mas com a entrega dos melhores profissionais aliada à motivação e prazer genuíno de um artista amador.

Bilhetes à venda no Rivoli Teatro Municipal, Bilheteiraonline.pt, FNAC e CTT.
Reserva de bilhetes: 22 339 22 01


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Carta aberta ao reitor da Universidade Lusófona - por João Miguel Tavares

Exmo. Reitor,

Foi com grande satisfação que soube que a Universidade Lusófona conferiu uma licenciatura em Ciência Política ao Dr. Miguel Relvas em apenas 14 meses, reconhecendo dessa forma a sua elevada estatura intelectual. Sempre sonhei com o alargamento das Novas Oportunidades ao Ensino Superior e fiquei muito feliz por terem dado o devido valor à cadeira de Direito que o senhor ministro fez há 27 anos com nota 10. Depois, naturalmente, o processo foi "encurtado por equivalências reconhecidas" (palavras do Dr. Relvas), após análise do seu magnífico currículo profissional.

É dentro desse mesmo espírito que vinha agora solicitar igual tratamento para a minha pessoa. Embora seja licenciado pela Universidade Nova com uns simpáticos 17 valores, a verdade é que o curso levou-me quatro anos a concluir e o Jornalismo anda pela hora da morte. Nesse sentido, e após análise da oferta disponível no site da universidade, venho por este meio requerer a atribuição do grau de licenciado em: Animação Digital (tenho visto muitos desenhos animados com os meus filhos), Ciência das Religiões (às vezes vou à missa), Ciências Aeronáuticas (já viajei muito de avião), Ciências da Nutrição (como imensa fruta), Direito (fui duas vezes processado), Economia (sustento uma família numerosa), Fotografia (tiro sempre nas férias) e Turismo (visitei 15 países). Já agora, se a Universidade Lusófona vier a ministrar Medicina, não se esqueça de mim. A minha mulher é médica, e tendo em conta que eu durmo com ela há mais de dez anos, estou certo de que em seis meses posso perfeitamente ser doutor.
Respeitosamente,
João Miguel Tavares
in Correio da Manhã, 06/07/12

domingo, 8 de julho de 2012

As trafulhices de quem se arroga de nos (des)governar - ainda a propósito da licenciatura "honoris causa" de Miguel Relvas

Entre as várias características que podem determinar a vantagem competitiva de um país, uma cultura de seriedade é, sem sombra de dúvida, uma das mais significativas. Desde logo, porque a cultura deve ser entendida como o espelho de um povo, pelo que uma forte cultura organizacional pode servir para transformar a própria cultura sem que daí resultem as habituais resistências à mudança. Essa é uma indubitável vantagem competitiva, uma vez que os países, nessas circunstâncias, mudam porque os seus concidadãos têm consciência de que devem mudar e não porque são constrangidos a mudar. Em tais contextos, uma cultura de seriedade deve ser uma consciência quotidiana, de onde se segue que aquele que prevaricar - políticos incluídos -, para além dos tribunais, é ostracizado pela própria sociedade.

Hoje, quando olhamos para o país verificamos que, de há demasiados anos a esta parte, vivemos uma cultura de corrupção. Foi o BPN e a SLN, o Freeport, a Face Oculta, o caso da Cova da Beira, múltiplas parcerias público-privadas e tantos outros casos que já caíram no esquecimento porque, infelizmente, a memória dos portugueses é curta e, por essa razão, estamos a viver cada vez pior. Mas parece que, para além de terem memória curta, os portugueses aceitam resignadamente viver paredes meias com gente corrupta. O problema é que esta cultura de corrupção está a sair demasiado cara ao país.

É urgente tomarmos consciência de que a mentalidade permissiva que há muito habita no nosso espírito, sobretudo daqueles a quem o poder subiu à cabeça, atingiu os limites do impossível e, similarmente à democracia tão criticada por Sócrates - o filósofo - na Grécia Antiga, tornou-se legal. Senão vejamos: o que se ouve dizer é que Miguel Relvas do ponto de vista moral prevaricou, mas do ponto de vista jurídico não se lhe pode acusar de nada, o que significa que a corrupção aconteceu em conformidade com a lei e, como tal, passa a fazer parte dos não assuntos. Conclusão: legalizaram-se as trafulhices.

Ora, um país cujos governantes pensam desta maneira vai a caminho do cano de esgoto da História. Portugal não resiste muito mais tempo a esta cultura de corrupção. Haja vergonha!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O dilema de Passos Coelho - a propósito da licenciatura "honoris causa" de Miguel Relvas

Segundo a edição de ontem do jornal Público, o currículo profissional de Miguel Relvas no exercício de diversos cargos públicos permitiu-lhe concluir a sua licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Lusófona, em pouco mais de um ano. 

Passos Coelho tem rapidamente de decidir se quer sacrificar o Governo para salvar Miguel Relvas, ou sacrificar Miguel Relvas para salvar o Governo. Porque a questão é simples: pode um país ser governado por gente que não merece confiança? Claro que não pode, e ainda pode menos quando os tempos são de grande sacrifício, sobretudo para as camadas da população mais desfavorecidas.

De há uns anos a esta parte, os portugueses habituaram-se a ver a população, mais ou menos manipulada, a perder o respeito por aqueles que a governam. E quando o povo perde o respeito por aqueles que o governam, então, todos estamos sujeitos à falta de respeito. Ora, sem respeito não há confiança, sem confiança não há economia e sem economia não há sociedade que resista.

Assim sendo, o primeiro-ministro devia precaver-se. Já não se trata de uma disputa jornalística ao estilo do diz tu, direi eu. Agora, o caso fia mais fino porque se trata da credibilidade de uma das mais velhas instituições do País: a instituição universitária. Por isso, a dita licenciatura tem de ser esclarecida. Desde logo, quem foram os júris que assinaram as várias peças do processo de equivalência, na medida em que não podemos crer que tal assunto tenha resultado de uma decisão unipessoal.

Faz mal Passos Coelho considerar a licenciatura em causa como um "não assunto". Porque, ou mata o assunto de uma forma definitiva, ou o "não assunto" passará a ser ele próprio, Passos Coelho. E nessa altura só lhe resta a demissão ou, em alternativa, a desconsideração dos portugueses. 

O primeiro-ministro tem de decidir urgentemente se quer sacrificar o Governo para salvar o Miguel ou sacrificar o Miguel para salvar o Governo. Poderá, por exemplo, sugerir a Relvas que vá tirar um curso de Ciência Política para Paris...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Legendar o silêncio icónico (21) - a Índia também somos nós (2)

As autoridades indianas revelaram, no dia 1 de julho, que pelo menos 61 pessoas morreram e cerca de dois milhões foram afetadas pelas inundações que se têm registado desde o final de junho no estado de Assam. As cheias, provocadas pelas fortes chuvas da monção, alagaram duas mil aldeias, levando a que cerca de meio milhão de pessoas tenha procurado abrigo em acampamentos preparados pelas autoridades.

domingo, 1 de julho de 2012

Banda sonora para o verão (22) - a propósito do concerto dos Echo and the Bunnymen na Serra do Pilar

Os Echo and the Bunnymen estão no ativo desde 1978. Desde então, lançaram 11 álbuns de estúdio, entre coletâneas, registos ao vivo e algumas desavenças, que levaram o carismático vocalista e cofundador, Ian McCulloch, a abandonar, durante alguns anos, a banda para se dedicar a uma curta, mas interessante, carreira a solo. 

Ontem à noite, deram um bom concerto em Gaia, na Serra do Pilar, com vista privilegiada para o Rio Douro. Foi, sobretudo, uma oportunidade para o público revisitar memórias de adolescência e conhecer algumas canções da segunda fase da discografia dos autores de "Crocodiles" (o álbum de estreia, de 1980). Para muitos críticos, "Ocean Rain" (editado em 1984) foi um disco de uma qualidade melodiosa irrepetível. Quanto a mim, tenho "What Are You Going To Do With Your Life?" (gravado já em 1999) como a obra mais inspirada dos Echo and the Bunnymen. É, de resto, um dos CD que levaria para uma ilha deserta... no verão.

Echo and the Bunnymen - "Rust"

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...