
O último romance publicado por José Saramago, "A Viagem do Elefante", é uma crónica existencialista, à semelhança de livros anteriores do Nobel português da literatura.
Obra superior, narra o trajecto de um elefante e da comitiva que o acompanhou de Portugal a Espanha e daqui a Áustria, passando por terras de Itália. É o regresso de Saramago ao romance histórico, pretexto para traçar sem rodeios um retrato da condição humana (o cornaca é um verdadeiro anti-herói, símbolo do trabalhador explorado que aceita o seu destino de eterna subserviência) e animal (o elefante pode ser entendido como símbolo da natureza, tão desprezada e mal tratada pelos homens do poder).
A história é simples: em pleno século XVI, o rei D. João III oferece ao Arquiduque Maximiliano da Áustria um elefante vindo da Índia, que há dois anos se encontra em Belém. O animal, outrora aplaudido e motivo de autênticas peregrinações do povo português que nunca tinha visto semelhante criatura, vive agora esquecido e entregue aos cuidados de um cornaca indiano.
O autor do livro em análise vai sempre directo ao osso, num estilo narrativo ao qual já há muito habituou os seus fiéis leitores, e fazendo uso de um sentido de humor muito aguçado. De facto, há momentos tão hilariantes que nos fazem olvidar que, enquanto escrevia "A Viagem do Elefante", Saramago passou por um doloroso período de convalescença.
"(...) [Ao lado do Arquiduque Maximiliano] está sentada a formosíssima esposa, a Arquiduquesa Maria, em cujos rosto e corpo a beleza não irá durar muito porque parirá nem mais nem menos que dezasseis vezes, dez varões e seis fêmeas. Uma barbaridade." (Círculo de Leitores, pp. 151-152)
"A Viagem do Elefante" parece saído da pena de um jovem escritor, tal é a frescura, realismo e lucidez que transpira em todas as páginas. Ah!... e que belíssimo filme daria este livro se o cinema português estivesse para aí virado! Curiosamente, desde a leitura das primeiras páginas imaginei a história transfigurada num filme de animação. Enfim, devaneios de um leitor que devorou com imenso prazer a presente obra.
Saramago é um autor singular no auge da sua criatividade e recomenda-se.
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